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Por ezequielb
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Todos os dias eu passava em uma rua no caminho para o colégio e via um grande e velho galpão abandonado. Sempre tive a sensação de que ele me observava — como se guardasse segredos que se contorciam na escuridão. A madeira podre parecia respirar, e as janelas quebradas eram como olhos abertos demais.

1934 era um ano pesado. A cidade vivia mergulhada em corrupção, fumaça, silêncio e medo. Até o vento parecia carregar segredos.

Um dia, a curiosidade venceu o medo. A porta do galpão rangeu tão alto que meu corpo todo se arrepiou. Lá dentro, o ar era espesso, abafado… quase doente. Dei apenas dois passos quando ouvi:

Tiros.

O som rasgou o ar — e rasgou algo dentro de mim. Meu corpo travou. Senti o chão fugir dos meus pés. Me joguei atrás de caixas velhas. A madeira úmida encostou no meu rosto como uma mão fria. Meu coração batia tão rápido que parecia tentar escapar do meu peito.

Então vieram as vozes.

Graves. Cruéis. Vazias de alma.

— “Acabou. Eles não vão levantar.”

As palavras ficaram presas dentro de mim, como se tivessem sido ditas direto no meu ouvido. Fiquei imóvel até que os passos desapareceram.

Quando finalmente criei coragem para levantar, vi os corpos.

Cinco.

Os olhos abertos, a pele pálida, os membros soltos… como se a vida tivesse sido arrancada deles à força. Aquela imagem se cravou no fundo da minha mente, como um prego.

Corri para casa sem olhar para trás, sem respirar, sem pensar. Quando cheguei, desabei nos braços dos meus pais, tremendo tanto que parecia que meus ossos iam se quebrar.

Eu deveria ter calado.
Deveria ter fingido que não vi nada.
Mas contei tudo.

E na mesma noite, o horror bateu à porta.

A chuva caía pesada. O vento uivava nas frestas. Eu não conseguia dormir — toda vez que fechava os olhos, via aqueles corpos de novo. Então tomei coragem: no dia seguinte, eu iria à delegacia.

E fui.

Mas assim que entrei, dois policiais vieram falar comigo. As vozes deles fizeram meu sangue gelar.

Eram as mesmas vozes dentro do galpão. O mesmo tom. A mesma frieza.

A mesma alma morta.

Corri para casa, tropeçando nas próprias pernas.

Mas quando cheguei… a porta explodiu.

Eles entraram ensopados pela chuva, armas em punho, olhos vazios. Meus pais nem tiveram tempo de compreender.

Os tiros vieram secos, violentos, desumanos.

O som reverberou dentro do meu peito. Meu grito saiu cortado, rouco, desesperado. Vi meus pais caírem — como bonecos que alguém largou no chão.

E dentro de mim, algo se partiu para sempre.

Os policiais se aproximaram devagar, como predadores que saboreiam a presa antes de devorar.

— “A garota sabe demais.”
— “Acaba logo com isso.”

Tentei correr, mas minhas pernas não respondiam. Me escondi atrás da mesa, engolindo o choro, tentando fazer meu corpo desaparecer.

Quando achei que tudo tinha acabado, a porta dos fundos foi arrebentada.

Um homem entrou como uma sombra viva. Casaco negro, chapéu baixo, olhos afiados como lâminas.

Miguel.

Ele não hesitou. Não pensou. Apenas agiu.

Os tiros encheram a casa. Gritos. Estilhaços. Pó. Fumaça. Cheiro de pólvora queimando minha garganta. Eu tremia tanto que quase caí.

Quando o silêncio finalmente pesou sobre nós, Miguel se aproximou devagar.

— “Eles iam te matar. Eu não podia deixar.”

Sua voz era firme, mas quebrada por dentro — como se ele carregasse seus próprios fantasmas.

Ele me tirou daquela casa enquanto a chuva lavava o sangue que escorria pelo chão. Depois me levou para um abrigo escondido. Ali, meu mundo desmoronou.

Não dormia.
Não comia.
Não falava.

A morte dos meus pais voltava toda noite, como uma tortura que não acabava.

Miguel não prometeu que eu ficaria bem.
Nenhuma mentira.
Nenhuma esperança falsa.

Ele apenas ficou.

Sentado ao meu lado.
Silencioso.
Sombreado.
Guardando minha alma para que ela não afundasse de vez.

Com o tempo — muito tempo — comecei a respirar de novo. Meu corpo tremia menos. Minha voz não quebrava a cada palavra. E percebi que Miguel não era um herói. Era feito de sombras — mas sombras que me protegiam, não que me destruíam.

Numa noite fria, olhando a cidade engolida pela névoa, ele tocou minha mão. Foi um toque cuidadoso, quase tímido, como se tivesse medo de me quebrar.

Eu olhei para ele.
Ele olhou para mim.

E nossas dores se reconheceram.

O beijo que veio depois não foi doce.
Foi pesado.
Triste.
Sombrio.

Mas verdadeiro.

Duas almas quebradas tentando sobreviver juntas
no escuro.
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    Erros de norma: poucos desvios relevantes (uso de vírgulas, concordância e pontuação em alguns trechos). Ex.: “A porta do galpão rangeu tão alto que meu corpo todo se arrepiou.” está correto, mas em trechos com diálogos o uso de travessões e aspas é inconsistente; padronize para: — Acabou. Eles não vão levantar. —, mantendo coerência gramatical. Correção prática: padronizar pontuação nos diálogos, evitar abreviações desnecessárias. Em relação à competência 2, o texto é narrativo, não dissertativo-arg., logo faltaría tese clara. Considere introduzir tese e conclusão que respondam ao tema. Para a competência 3, reforce defesa de ponto de vista com frases de efeito e dados/opiniões. Em coerência (competência 4), as transições são simples; use conectivos como porém, entretanto, além disso, por exemplo, assim, logo, para manter a progressão lógica. Por fim, competência 5 não apresenta proposta de intervenção com agentes, ações, meios e finalidades; elabore uma intervenção que respeite direitos humanos, por exemplo: Agente (ensino público/órgãos de proteção), Ação (criar canais de denúncia e apoio a testemunhas), Meio (proteção sigilosa e acompanhamento social), Finalidade (reduzir violência e punir abusos).

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  1. C1 norma-padrão

    Você atingiu aproximadamente 100% da pontuação prevista para a Competência 1, atendendo aos critérios definidos a seguir. O participante demonstra excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita, neste nível, são aceitos somente como excepcionalidade e quando não caracterizam reincidência.

  2. C2 Compreensão da proposta

    Você atingiu aproximadamente 40% da pontuação prevista para a Competência 2, atendendo aos critérios definidos a seguir. O participante desenvolve o tema recorrendo à cópia de trechos dos textos motivadores ou apresenta domínio insuficiente do texto dissertativo-argumentativo, não atendendo à estrutura com proposição, argumentação e conclusão, ou seja, com essa pontuação, ou o tema da redação é desenvolvido a partir de considerações próximas ao senso comum ou muito próximas do que foi proposto nos textos motivadores, sem progressividade, ou ainda o texto apresenta domínio precário do tipo textual exigido, com poucas características de uma dissertação, ainda que se reconheça o tema proposto.

  3. C3 seleção de argumentos

    Você atingiu aproximadamente 20% da pontuação prevista para a Competência 3, atendendo aos critérios definidos a seguir. O texto não defende ponto de vista a respeito do tema proposto e/ou apresenta informações, fatos e opiniões pouco relacionados ao tema, superficiais ou incoerentes.

  4. C4 construção de argumentos

    Você atingiu aproximadamente 60% da pontuação prevista para a Competência 4, atendendo aos critérios definidos a seguir. O participante articula de forma mediana as partes do texto com inadequações ou alguns desvios e apresenta repertório pouco diversificado de recursos coesivos.

  5. C5 Proposta de Intervenção

    Você não atingiu os critérios definidos na Competência 5. O participante não apresenta proposta de intervenção ou apresenta proposta não relacionada ao tema ou ao assunto.

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